Monday, May 14, 2007

alheava – a rua

Projecto Os Descartáveis _ Revista CAIS | 21 ½

DATA

Maio 2007

alheava – a rua

REVISTA (Street Magazine) de foto-reportagem temática

280x390mm


nasceu em Portugal

foi para Moçambique

que diz ser

a sua terra

lutou pela independência

sobreviveu a duas guerras

obrigado a regressar a Portugal

país que desconhece

e diz

não saber viver

em silêncio

na rua de Moçambique

olha para dentro de si

e vive em Moçambique

sem ser português


alheava – a rua

MUPIS

1185x1750 mm



A edição de Maio da revista CAIS reúne 16 obras inspiradas e resultantes da interacção entre 16 artistas consagrados e os utilizadores de várias instituições sociais, pessoas e grupos que se encontram em situação de risco ou exclusão social.

Entre os meses de Março e Abril, os artistas foram convidados a visitar algumas instituições sociais em Lisboa, a fim de conhecerem o trabalho desenvolvido no terreno, interagirem com a população-alvo e, em simultâneo, estimularem a sua criatividade e participação no projecto.

Foi com o objectivo de permitir o envolvimento desta população num projecto artístico e social, que o Grupo 21 1/2 (Plataforma Independente de Transgressão Artística, liderado por João Mourão, Paulo Romão Brás e Sandro Resende) idealizou e desafiou a Associação CAIS a produzir uma edição da revista dedicada ao tema “Os Descartáveis”. O projecto reúne 16 obras e textos de críticos de arte e ensaístas, desafiados a interpretar o tema e as obras.

É este o projecto que preenche a secção Revelação da 2ª edição (Maio) do novo formato editorial da Revista CAIS. A CAIS adoptou no mês passado um perfil editorial voltado para a reflexão, a informação e a descoberta de novos talentos. Com a colaboração de importantes figuras do mundo académico, político, cultural e empresarial, a CAIS dedica-se à síntese da actualidade, à cidadania empresarial, à cultura, ao entretenimento, a concursos de contos, fotografia e cartoon, à sociedade civil e a ensaios em áreas que vão desde a Política e a Economia, à Justiça e Filosofia.

ANEXOS (Projecto “Os Descartáveis”)

Instituições visitadas:

Associação CAIS - Centro CAIS de Lisboa

Associação VITAE – Centro de Acolhimento de Xabregas

Exército de Salvação – Centro de Acolhimento de Xabregas

M.S.V. – Movimento ao Serviço da Vida - Equipa de Rua

Artistas Participantes:

· António Júlio Duarte

· Duarte Amaral Netto

· Manuel Santos Maia

· Nuno Ramalho

· Sandro Resende

· Paulo Romão Brás

· Susanne Themiltz

· João Penalva

· Maria Lusitano

· Sandra Cinto

· Francisco Queirós

· Paula Roush

· Ana Péres-Quiroga

· Miguel Palma

· Valter Vinagre

· Xana

Críticos e ensaístas:

· João Mourão

· João Pinharanda

· Manuela Sanches


Os Descartáveis


O esvaziamento da textura humana dos valores que a compõem, como resultado da utilização mercantilista da pessoa humana, entendida como meio e nunca como um fim, faz depender a importância do ser humano do ganho que este é capaz de produzir, tornando-se sempre descartável ou dispensável, cada vez que a criação de riqueza deixar de se verificar com ele. Por outro lado, a valorização do que existe com base na qualidade do retorno que este nos possibilita, tornou as transacções mundiais num materialista e desrespeitador "usa-e-deita-fora".

O Grupo 21 ½ desafiou a Associação CAIS para a publicação de uma edição da Revista CAIS e produção de uma exposição de arte pública, baseadas em obras resultantes da interacção/conhecimento/análise/olhar de 22 artistas plásticos sobre a população alvo da intervenção social da Associação CAIS (pessoas e grupos em situação de risco ou exclusão social).

Críticos de arte, ensaístas e personalidades ligadas ao sector social, também serão convidados a escrever e a interpretar o tema e as obras.

A edição da revista no mês de Maio seria assim acompanhada de uma mostra em formato MUPI - Mobiliário Urbano Para Informação -, durante um mês, numa das principais praças da cidade de Lisboa e reunirá os trabalhos e que integram a edição da revista.

OBJECTIVOS DO PROJECTO

Promover o envolvimento da população alvo da intervenção social da Associação CAIS num projecto artístico

Dar a oportunidade de participação num projecto cultural e artístico a pessoas que de outra forma não teriam acesso

Valorizar parcerias concertadas entre o sector social e o meio artístico/cultural

Intervir no espaço público promovendo o acesso generalizado à cultura

Prosseguir a missão da Associação CAIS de sensibilização da opinião pública para as questões sociais e para a solidariedade

Permitir que os artistas contribuam com o seu olhar sobre esta situação social

Contribuir, ainda que momentaneamente, para uma arte com aplicação social directa

Existe a possibilidade de efectuar visitas a instituições sociais da cidade de Lisboa, com os objectivos de conhecerem o trabalho desenvolvido no terreno, interagirem com a população alvo e, em simultâneo, estimularem a criatividade e a participação na produção das obras.

Locais propostos: Associação Vitae (Albergue de Marvila), Exército de Salvação (Albergue de Xabregas), Porta Amiga das Olaias – Fundação AMI, Centro CAIS de Lisboa, Equipa de Rua C.M.L.

As obras apresentadas poderão promover a participação/implicação dos utentes destas instituições.


Revista CAIS

Revista (Street Magazine) de foto-reportagem temática

MISSÃO

Contribuir para o melhoramento global das condições de vida de pessoas e grupos em situação de risco ou exclusão social.

OBJECTIVOS

Colocar na ordem do dia as temáticas relacionadas com a Pobreza e Exclusão social;

Potenciar o trabalho em Rede e consolidar parcerias;

Valorizar os beneficiários (utentes) do sistema social enquanto elementos críticos e activos;

Desenvolver e implementar estratégias de intervenção social adequadas às necessidades das populações alvo.

POSICIONAMENTO – CAIS. Desperta Consciências.

Entidade activa e dinâmica, no trabalho no terreno e no debate das questões sociais em Portugal.

Inspirada na revista inglesa, The Big Issue, a Revista CAIS é a primeira criação da Associação, e tem-se revelado uma estratégia sócio/cultural de sucesso, nos processos de acompanhamento psicossocial e profissional dos sem-abrigo, e de outras pessoas em risco. São estes que a vendem, em exclusivo, na rua.

Privilegia as temáticas sociais, culturais e cientificas na selecção e abordagem editorial. O seu principal objectivo é despertar os leitores e a opinião pública em geral para as problemáticas sociais.

O preço de capa são 2€ e a receita das vendas reverte para os vendedores (70%). É um instrumento de auto-valorização dos vendedores, porque a venda permite-lhes auferir de um rendimento digno e ter acesso a condições mínimas de vida.

É distribuída por instituições de cariz social em todo o país, que seleccionam, entre os seus utentes, os vendedores CAIS. A Revista CAIS não é um ponto de chegada, mas um cais de partida, uma resposta de transição para a vida activa.

O QUE DIZEM

”(...) há diversas razões que explicam o sucesso desta revista.(...) a variedade de temas (...) dossiers bem elaborados sobre determinadas questões.(...) Em segundo lugar, o aspecto gráfico. Apesar da modéstia dos recursos, existem quase sempre excelentes fotografias e um grafismo inteligente e comunicativo (...) Em terceiro lugar, a boa educação e simpatia dos vendedores.(...)”

Eduardo Prado Coelho, In Público, Dezembro 2005

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS

Definição: Revista (Street Magazine) de foto-reportagem temática

Periodicidade: mensal (11 edições/ano)

Tiragem média: 40 mil exemplares

Preço de capa: €2 (70% para o vendedor, 15% Centro de Distribuição, 15% Associação CAIS)

Formato: fechado – 195x280mm, aberto – 280x390mm

Lineatura: 120 Linhas

REDE DE DISTRIBUIÇÃO

Lisboa, Carcavelos, Almada, Coimbra, Aveiro, Vila Nova de Gaia, Porto, Viana do Castelo, Faro, Portimão e Funchal.

21 ½ - Plataforma Independente de Transgressão Artística

O Grupo 21 ½: Plataforma Independente de Transgressão Artística, liderado por João Mourão, Paulo Romão Brás e Sandro Resende, é experiente em produção e curadoria de exposições similares, principalmente na realização de projectos de arte urbana e de projectos em locais pouco convencionais fora do circuito galerístico.

EXPOSIÇÕES RECENTES

Stigmata – Sala do Veado – Museu de História Natural – até 31 de Março de 2007

Projecto de parceria entre um grupo de dez artistas plásticos (na sua grande maioria com formação em fotografia) desenvolvido num período de 3 meses, com um conjunto com dez pessoas clinicamente intituladas de doentes mentais e que revelam interesse e ambição pela criação artística.

Artistas participantes: António Júlio Duarte, Célia Domingues, Duarte Amaral Netto, Walter Vinagre, Margarida Gouveia, Paulo Romão Brás, Graça Sarsfield, Pauliana Pimentel, Sandro Resende e Isa Duarte Ribeiro

In Between – de Luisa Cunha e António Júlio Duarte - Kleines Kabinett, Lisboa – Fevereiro/Março de 2007

Go Between – de Paulo Romão Brás e Sandro Resende - Kleines Kabinett, Lisboa - Novembro 2006

Dois momentos expositivos comissariados por João Mourão e que ocuparam o espaço de uma casa em obras. O Kleines Kabinett (KK) encontra-se num lugar-entre foi um espaço habitado e voltará a sê-lo em breve e durante este período intermédio em que decorrem as obras de modificação, a controlada arquitectura das ruínas tornou-se um espaço expositivo. Longe do cubo branco temos um espaço que causa estranheza, que se impõe, que deposita e reclama memórias e imagens. É por isso parte integrante nesta exposição. Não apenas enquanto suporte, mas também como reflector de uma história, de narrativas e memórias que atribuímos à Casa.

Manicómio Dr. Heribaldo Raposo – Museu da Cidade, Pavilhão Preto, Lisboa - Maio de 2006

Partindo do livro com o mesmo nome do Dr. Pedro Afonso foram convidados vintes artistas plásticos que trabalharam vintes frases do livro.

Artistas participantes: Cristina Lamas, Susana Mendes Silva, Ana Perez Quiroga, Ana Rito, Rita Nabeiro, Rute Gaspar, Paulo Romão Brás, Graça Sarsfield, Walter Pinguinha, Sandro Resende, Inês Botelho, Célia Domingues, Catarina Botelho, Hugo Barata, Isa Duarte Ribeiro.



Tuesday, March 27, 2007

alheava – passeio

Edição de página de jornal

com artigos publicados no jornal NOTICIAS

de Moçambique e fotografias

Apresentado no Espaço transportável em Guimarães
http://www.espacotransportavel.blogspot.com/
Curadoria de Luís Ribeiro



COMUNICADO PRESIDENCIAL

«As cidades e os aglomerados populacionais que mais foram marcadas pelo estigma da discriminação racial e social e da exploração capitalista no nosso país, »

«Elas reflectem de uma maneira gritante todas as contradições, injustiças, divisõe

s e preconceitos da sociedade colonial portuguesa baseada no racismo e no capitalismo. A população vive dividida segundo a raça, a cor da pele e classe social.

« Ao mesmo tempo o direito ao alojamento, que corresponde à satisfação de uma necessidade essencial e elementar de cada cidadão e da sua família, é objecto de uma especulação sem limites que conduz ao enriquecimento escandaloso de um certo sector da burguesia colonial.

«o povo moçambicano continua assim, apesar da conquista da sua independência política a

ser discriminado, humilhado e explorado no seu próprio país, a mais das vezes por aqueles mesmos que durante todo o período colonial foram agentes, cúmplices ou beneficiários passivos da situação colonial.

«esta situação de discriminação e de exploração é incompatível com os objectivos da República Popular de Moçambique e com a dignidade e liberdade do povo moçambicano. A fim de pôr termo a esta situação, o governo da República Popular de Moçambique decidiu adoptar as medidas a seguir enunciadas:

«1. Cada família tem o direito a ser proprietária da sua própria habitação. Aceita-se também que possa ter uma casa ou apartamento de repouso em local de praia ou de campo.

«2. Revertem imediatamente para o Estado todos os prédios ou partes de prédios de rendimento.

São considerados prédios de rendimento os edifícios que, sendo destinados a habitação ou outros fins, tais como comércio, industria ou agricultura, «não sejam ocupados pelos actuais proprietários.

«3. Tratando-se de prédios cujos proprietários tenham efectuado investimentos próprios ainda não amortizados pelos rendimentos, esses proprietários serão indemnizados em termos a fixar em diploma legal, em função do montante não amortizado.

«4. O Estado assegurará uma renda vitalícia aos actuais proprietários quando tenham como único meio de subsistência o rendimento de prédios e que por virtude da idade avançada, condição física ou outra incapacidade não tenham possibilidade de garantir o seu sustento e da família a seu cargo.

«5. Os indivíduos que sejam proprietários de prédios, mas residam noutro prédio, arrendado ou não, poderão declarar em qual das suas casas pretendem habitar.

Dessa opção será dado conhecimento ao inquilino que deverá desocupar o prédio no prazo máximo de noventa dias.

«6. Não poderão ser vendidos, cedidos ou por qualquer forma alienados imóveis sem prévia autorização do Estado.

«7. Os imóveis em construção cujos proprietários apresentem provas da sua utilização futura pelos próprios para habitação ou outros fins, designadamente comércio, indústria, agricultura, não são considerados prédios de rendimento.

A esses imóveis só se aplicará a reversão para o Estado se os proprietários não promoverem o prosseguimento normal das obras.

«8. Até a criação de órgãos apropriados, competirá ao Montepio de Moçambique e suas delegações receber as rendas, administrar e conservar os prédios que passam a constituir património do Estado.

«Até novas orientações, os inquilinos continuam a pagar o valor das actuais rendas. Os inquilinos que ainda não tenham pago as rendas referentes ao mês de Fevereiro, deverão fazê-lo até 10 a 15 do mês corrente, no Montepio de Moçambique, sem quaisquer adicionais ou multas.

«As medidas agora tomadas inserem-se no combate permanente do povo moçambicano sob a direcção da FRELIMO, pela conquista e consolidação da independência Nacional, da dignificação do homem moçambicano, da libertação económica social e cultural do nosso país e da nossa sociedade.

«Elas constituem uma concretização das aspirações de todo o povo moçambicano pelas qu

ais tombaram os melhores dos seus filhos, os heróis que hoje homenageamos.

«Os objectivos das decisões tomadas são:

«1.º - Liquidar o racismo, a discriminação racial e social que ainda existem na nossa sociedade, na nossa cidade.

Liquidar o racismo, acabar com a divisão para criar as bases da verdadeira unidade, unidade de todo o povo sem distinções baseadas na raça ou na cor da pele.

«2.º - Permitir ao povo tomar a cidade vivendo nela.

A cidade não deve pertencer aos exploradores, não deve continuar a ser propriedade dos capitalistas que desprezam os trabalhadores.

A cidade deve ser uma face moçambicana.

O povo vai poder viver na sua própria cidade e não no quintal da cidade.

«3.º - Organizar no seio da cidade, nos bairros, nos quarteirões, nos prédios, uma verdadeira vida colectiva.

Organizar a democracia no seio da cidade, de modo a que todos participem na discussão e resolução dos problemas da vida colectiva, da vida de todos e de cada um.

«Deste modo estaremos a criar as bases para o exercício do Popder Popular Democrático, o alicerce político da nossa Sociedade.

Presidente da FRELIMO e da Republica Popular de Moçambique, Samora Machel

Publicado NOTÍCIAS, Maputo, quinta-feira, 5 de Fevereiro de 1976






CONSTANTINO GIL MARQUES

UM AMIGO QUE PARTIU DESTE VALE DE LÁGRIMAS

A notícia percorreu, célere, a cidade, mergulhando em expectativa quantos conheciam Constantino Gil Marques Maia, mais propriamente «o Maia», estendendo-se, ao depois, para além das suas portas, provocando um movimento de interesse pela saúde que perigava.

Transportado para casa de saúde do Marrer, aí lhe foram progalizados todos os recursos da ciência, mas em vão. Decorridos breves dias, «o Maia» entregava a alma a Deus, abandonando seu espírito adamantino este vale de lágrimas a onde afeiçoara tantas e invejáveis qualidades que o exornavam.

Pesada, amarfalhante, ecoou a má nova: finara-se um colono há dezenas de anos ra

dicado no norte, um amigo de Nampula, um pacífico cidadão incapaz de fazer mal a alguém, um exemplar marido e pai que levara uma existência de trabalho esforçado, agarrado à terra, estimando e estimado por todos, nunca olhando a sacrifícios, dando um constante exemplo de apego e fidelidade ao lar que construíra mercê de invulgar tenacidade.

-- Um bom homem! – ouvia-se de todos os lados, logo após o passamento.

Realmente assim era: um bom homem, um homem sério, leal, de boas contas, respeitador.

Conheci Constantino Gil Marques Maia, por volta de 1952, em António Enes, vila que estimava e a que o prendiam os interesses da sua intensa vida comercial e de construtor exímio. Sempre bem disposto, galhofeiro, impressionou-me agradavelmente. Fui contactando mais e mais com ele, acabando por admirá-lo numa localidade bastante divorciada da bondade, do humanitarismo – das palavras lavadas.

Apresentou-me à consideração milhentos problemas, sobretudo de ordem económica, dissertando com facilidade e conhecimento de causa, socorrendo-se, não apenas da imensa experiência acumulada durante anos mas também e sobretudo da limpidez de raciocínio com que o Criador o dotara, exprimindo-se sem deixar margem a dúvidas, com desassombro, boa fé e às vezes uma ponta de tristeza que não conseguia esconder quando percebia direitos feridos ou intenções desvirtuadas que prejudicavam a comunidade.

Um dos seus cavalos de batalha era a liberdade de preços, filha consanguínea da livre concorrência, como fautor de estabilidade e defesa do consumidor, argumentando que o custo e a venda, por mais voltas que se dessem e teoremas que se congeminassem e teorias que se elevassem como frágeis castelos, sempre dependeriam dos bons e dos maus anos agrícolas, todo o resto se ficando em ideias que até ao presente, apesar dos esforços desesperados de muitos estudiosos, nunca lograram vida saudável.

O falecimento do querido amigo veio lembrar, uma vez mais, a transitoriedade da vida onde somos viajeiros e gritar-nos que tudo passa, que viemos do pó e para ele regressaremos um dia. Que Deus, alfa e ómega de todas as coisas, nos criou à sua imagem e semelhança e portanto nos compete servir só, e apenas, na verdade, em verdade, pela verdade, mesmo correndo o risco de ficarmos sós!

Que desgosto, quando reparamos que tantos gastam os dias numa frustração completa de si mesmos, enganando o semelhante, quase tentando enganar-se a si próprios, esquecidos que ao divino dador ninguém engana porque Ele também não nos engana a nós!

E que alegria nos inunda a alma ao podermos testemunhar que «o Maia» foi um homem bom e sincero!

Partiste, amigo inolvidável, e foste recebido em festa pelo coro dos anjos, porque cumpriste o teu dever! A cidade acorreu a prestar-te as últimas homenagens de que eras merecedor, até porque muito do que ela é, to ficou a dever através de tantos prédios que falam do teu nome, que hão-de invocar através dos anos, a tua memória!

E eu amigo querido, nem sequer pude ir junto à campa que recebeu o teu corpo de martírios a lançar-te um punhado de terra e a desfolhar as pétalas da última e mais intensa saudade!

Mas para além do gesto simbólico, não esqueci pelo menos uma prece que se era de desejo de que descanses em paz era também de invocação para que peças por todos nós que vamos

continuar a tua obra, bem agarrados a esta terra que é nossa, que nos enfeitiçou como a ti, que te amortalha e nos há-de, talvez, amortalhar também um dia que oxalá seja na altura em que tenhamos a folha de serviços bem informada como tu tinhas a tua recheada de boas acções!

Reza por nós, amigo!

Recomenda-nos!

Eduardo de Canavezes

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­_________________________________________________________

NECROLOGIA

CONSTANTINO GIL MARQUES MAIA

(DA NOSSA DELEGAÇÃO)

NAMPULA, 1 – Via Telegráfica

- No Marrer, faleceu hoje de manhã o sr. Constantino Gil Marques Maia, de cinquenta e três anos, natural da Figueira da Foz e velho residente na cidade. Era pessoa muito consideradad, e o seu falecimento causou, por isso, geral consternação. O extinto era casado co D. Celeste Gil Marques Machado e o funeral realiza-se para o cemitério de Nampula, às 9.30 horas.

«Diário de Moçambique» apresenta sentidas condolências à família enlutada.


______________________________________________________________


­­­­­­­­­­­­­­­­­______

Constantino Gil Marques Maia

AGRADECIMENTO

CELESTE GIL MARQUES MACHADO, ANTÓNIO MAIA, JOSÉ MAIA E FAMÍLIA, vêm por este meio, na impossibilidade de o fazerem directamente, agradecer a todos quantos se

interessaram pela saúde de seu marido, pai e parente e o acompanharam à última morada.

______

Constantino Gil Marques Maia

AGRADECIMENTO

Sua mulher e filhos, vêm por este meio agradecer aos Ex.mos senhores doutores RUI DE OLIVEIRA, CARLOS ALBERTO e COSTA MATOS, bem como a todo o pessoal de enfermagem da Casa de Saúde do Marrer, a dedicação e carinho com que trataram seu marido e pai.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­___________________________________________________________________

DIÁRIO DE LOURENÇO MARQUES ---- 12/4/1962









Monday, March 5, 2007

texto Cristina Alves - alheava_dentro_o mar

Alheava – dentro_o mar

instalação (vídeo, escultura, fotografia, objectos)

2003

Salão Olímpico

Porto






“Alheava – dentro_o mar” de Manuel Santos Maia

“dentro_o mar” faz parte da série de trabalhos do projecto “Alheava”, que Manuel Santos Maia tem vindo a desenvolver ao longo do último ano a partir de um processo de construção repartido em várias fases.

A nível temático, o projecto “Alheava” aborda as vivências nas antigas colónias portuguesas, com todas as mudanças que ocorreram após a descolonização. Todas as mostras evidenciam o processo sensível e emocional que aí esteve e está implicado, e são no seu conjunto como que retratos simbólicos, vestígios documentais de uma situação que marcou a história pessoal de quem por lá passou e, de um ponto de vista mais colectivo, a própria história de Portugal.

O projecto “Alheava” segue uma orientação essencial, resgatar a memória num retorno a um passado através de diferentes registos. No Olímpico, Manuel Santos Maia expõe as suas deambulações, partilhando os seus registos e impulsionando o soltar de reflexões em comunhão com o Outro: num reencontro com a memória.

Extraídas do seu álbum de bebé, as fotografias da cidade e da província Nampula, onde viveu com a família, em Moçambique, procuram materializar algo que se perdeu.

Na instalação surgem ainda cadernos de apontamentos com notas e sinais que documentam um modus vivendi próprio das circunstâncias da época. A casa onde viveu com a família é objecto de alusão em duas imagens apresentadas em dois monitores de televisão: num a imagem da maqueta e da instalação transmitida em tempo real, e no outro a projecção de um filme que mostra a reconstrução de um percurso ao interior da referida casa agora vazia. Ambas as imagens convocam o retorno de uma lembrança que revisitamos num espaço interior, físico e psicológico. Na instalação, o observador parece procurar algo que apenas se vai revelando de modo vago e incerto.

Explorar todas as perspectivas do olhar, esmiuçar a memória, é o que se conclui do uso da terceira dimensão, quer na maqueta quer no filme ou na instalação.

A casa é, assim, símbolo espacial e existencial de um tempo passado que se apresenta num tempo presente.

A tomada de consciência do passado em “Alheava” não é o mero exteriorizar de umas quaisquer lembranças apoiadas no processo funcional e geral de conservação de realidades exteriores, é sobretudo um reavivar, sob a forma de recuperação, de algumas referências. Tornar presente uma situação concreta, enquanto marca histórica de uma história comum, o abandono condicionado, as vivências impedidas, de todos aqueles portugueses que passaram pela experiência da descolonização dos anos 70. Sem pretender acusar, nem condenar, propõe-se dar visibilidade a uma memória feita de silêncio. Ir à procura de resquícios “escondidos”, levantar o véu e, também, não deixar que certas emoções e sentimentos continuem no “escuro” – mais do que um tempo que ficou por esclarecer, é um período marcado por um sentido de perda e de opções impostas que ficou por exteriorizar.

A presença de um caixote, com inscrições da origem e do destino da mercadoria, acentua a intensidade do que se vive na instalação. Nesta perde-se a sensação de dor e fica-se dominado por uma afirmação, de que não vale a pena reviver nem reanimar uma vida que não volta mais. Na perspectiva de toda a geração de portugueses que viu de súbdito os seus projectos e as suas realizações de vida completamente alterados, este é aquele passado que passou de facto. Tal como quando se acorda de um sonho ao qual não se pode voltar – mas, neste caso, o sonho era a realidade.

Retornados ?!! Só alguns, os “outros” como é que retornavam a um lugar a onde nunca pertenceram de facto, lugar de antepassados, lugar de tempos antigos. É assim que muitos vieram para Portugal na condição de deslocados, daqueles que não são de lado nenhum, os errantes. Em busca de memórias ténues, vagas ou que nem sequer as tinham, forçados a abandonar memórias reais, de uma vida, de um projecto de existência ainda em desenvolvimento.

Cristina Alves, 2003

texto Gisela Leal _ alheava - derrotados





Manuel Santos Maia

Alheava – Eu sou um dos derrotados (Centro Cultural de Vila Flor, Guimarães) e Alheava – revisitação (Pavilhão de Portugal, Coimbra)

Neste novo passo no processo de reconstituição das memórias, confrontos e dificuldades que o regresso a Portugal representou para aqueles que tiveram de deixar para trás uma promessa de vida, Manuel Santos Maia introduz uma nova expressão no seu trabalho: a representação teatral. As seus pais são dadas as vozes de dois actores, num diálogo que percorre as vivências de um quotidiano estável em Moçambique, do confronto com a mudança e um conflito que lhes era estranho, ao vazio da perda e, finalmente, ao regresso a um país que nada tinha para lhes oferecer.

Na instalação Alheava – revisitação, o artista reconstitui a fachada da casa onde viveu em Nampula, que vem percorrendo todas as mostras do projecto Alheava. Numa parede, uma imagem do avô contrasta com o discurso do primeiro presidente moçambicano, e enquanto se percorre o espaço ouve-se a voz do pai do artista relatando momentos e histórias da família, circunstâncias que esta experienciou. No espaço são ainda projectadas as imagens de Nampula que foi registando em 8mm: imagens das festas, de viagens, da casa e da cidade.



Manuel Santos Maia

Alheava – I’m one of the defeated (Vila Flor Cultural Centre, Guimarães) and Alheava – revisitation (Portugal Pavilion, Coimbra)

In this new step in the process of reconstitution of memories, confrontations and difficulties that the return to Portugal represented for those who had to leave a life promise behind them, Manuel Santos Maia introduced a new expression within his work: theatrical representation. The voices of two actors are conferred to his parents, in a dialogue that addresses the living experiences of stable daily in life in Mozambique, the confrontation with change and conflict that they were not used to, the void of loss, and finally the return to the country that had nothing to offer them.

In the installation Alheava – revisitation, the artist rebuilt the façade of the house where he lived in Nampula, that appeared in all the exhibitions of the project, Alheava. An image of his grandfather projected on the wall is contrasted with the speech of the first Mozambican president, and as one walks around the space, one hears the voice of the artist’s father as he recounts family stories and experiences that he personally experienced. 8mm filmic images of Nampula are also projected on the walls: images of festivities, travels, home life and the city.

texto Gisela Leal _ alheava








Alheava_dentro_o mar

Manuel Santos Maia

“dentro_o mar” integra-se no projecto “Alheava” que Manuel Santos Maia tem vindo a desenvolver nos últimos anos, apresentando, em cada uma das suas diversas fases, diferentes abordagens a um mesmo tema: o resgate de memórias das vivências nas ex-colónias portuguesas. Nesta exposição o autor desmultiplicou os meios, que, assentes no princípio da instalação, iam do vídeo, passando pela maqueta e pela fotografia até ao objecto escultórico (um caixote vazio, alegoria de vivências, com as inscrições de origem – Moçambique – e de destino – Portugal).

As memórias familiares são aqui recontextualizadas com a sua integração na memória colectiva. O subtítulo “dentro_o mar” sugere-nos simultaneamente o espaço onde foi construída a ponte por onde transitaram as vidas que regressaram a Portugal após a descolonização e o tempo interior de cada história pessoal onde se encerram as memórias. Daqui partiu o autor para o resgate dos registos materiais e imateriais de que é composta a exposição – o álbum de bebé do autor, as fotografias da cidade de Nampula e a reconstituição digital do espaço da casa onde viveu.


Alheava_within_the sea

Manuel Santos Maia

“within_the sea” forms part of the “Alheava” project that Manuel Santos Maia has been developing over recent years, presenting, in each of its various phases, different approaches on the same topic: the retrieval of the memories of life experiences in the former Portuguese colonies. In this exhibition the artist multiplied the resources used. These resources were placed at the beginning of the installation and ranged from video, scale models and photography to sculptures (an empty crate, that serves as an allegory for life experiences, with inscriptions concerning the place of origin -- Mozambique -- and destination -- Portugal).

The family memories are re-contextualised herein through their integration into the collective memory. The subtitle “within_the sea” simultaneously suggests the space that served as a bridge for many people on their return to Portugal after the de-colonialisation period and also the interior period of each personal history encapsulating the respective memories. On this basis, the artist retrieved the material and immaterial records included within the exhibition -- the photo album of the artist as a baby, photographs of the city of Nampula and the digital reconstitution of the space of his former dwelling.